Aquela dor aguda na parte de trás do calcanhar, que muitas vezes parece uma “pedrada” ou uma queimação, especialmente ao dar os primeiros passos da manhã ou após uma corrida, é o sinal clássico de um problema que afeta milhões de pessoas: a Tendinite de Aquiles. Também conhecida como tendinopatia do calcâneo, essa condição é uma inflamação ou degeneração do maior e mais forte tendão do corpo humano, e ignorá-la pode levar a complicações sérias, como a ruptura total do tendão.
Para compreender a lesão, precisamos visualizar a anatomia. O tendão de Aquiles é uma estrutura fibrosa espessa que conecta os músculos da panturrilha (gastrocnêmio e sóleo) ao osso do calcanhar (calcâneo). Ele é fundamental para a marcha, pois é responsável por levantar o calcanhar do chão quando caminhamos, corremos ou saltamos. Devido à imensa carga que suporta até 10 vezes o peso do corpo durante um salto, ele é naturalmente suscetível ao estresse mecânico.



A patologia da Tendinite de Aquiles geralmente não ocorre de uma hora para outra; é uma lesão por sobrecarga (overuse). Ocorre quando a demanda sobre o tendão excede sua capacidade de resistência, gerando microlesões nas fibras de colágeno. Isso pode ser causado por um aumento súbito na intensidade dos treinos, uso de calçados desgastados ou sem amortecimento, encurtamento da musculatura da panturrilha ou até mesmo alterações no formato do pé, como a pisada pronada excessiva.
Os sintomas costumam evoluir em estágios. Inicialmente, a dor é leve e surge apenas após a atividade física ou ao acordar, acompanhada de rigidez no tornozelo que melhora com o movimento (“esquenta”). Com a progressão da inflamação, a dor torna-se constante, podendo haver inchaço visível, vermelhidão e um espessamento palpável do tendão. Em casos mais avançados, subir escadas ou simplesmente caminhar torna-se doloroso.
O diagnóstico preciso é feito pelo médico ortopedista, baseando-se na história clínica e no exame físico, onde a palpação revela a sensibilidade local. O “teste de Thompson” pode ser realizado para descartar ruptura. Para confirmar a extensão da tendinopatia se é apenas uma inflamação ao redor do tendão (paratenonite) ou uma degeneração interna (tendinose) exames de imagem como a ultrassonografia ou a ressonância magnética são essenciais.
O tratamento é, na vasta maioria dos casos, conservador e exige paciência, pois tendões têm metabolismo lento e demoram a cicatrizar. A fase inicial foca no controle da dor com gelo, repouso relativo (troca de atividades de impacto por natação ou bicicleta) e uso de calcanheiras de silicone para elevar levemente o calcanhar e aliviar a tensão. Anti-inflamatórios podem ser usados por curto período sob prescrição médica.
A reabilitação funcional é o pilar da cura definitiva. A fisioterapia utiliza exercícios de fortalecimento excêntrico (onde se fortalece o músculo enquanto ele se alonga), que comprovadamente reorganizam as fibras do tendão. Além disso, a correção da biomecânica da pisada, o alongamento constante da cadeia posterior e o retorno gradual ao esporte são fundamentais para evitar que a tendinite se torne crônica ou recorrente.
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